VBNC – Viable But Non-Culturable

Viável mas não cultivável – perigo oculto. Microrganismos que encontram-se como em um estágio de “dormência”, reduzindo consideravelmente seu metabolismo em sua defesa, parando de se multiplicarem para que possam sobreviver em condições severas de ambientes desfavoráveis.
Este é um enorme desafio para a saúde pública e para a manutenção das Boas Práticas de Fabricação nas indústrias. Microrganismos como Salmonella, Vibrio cholerae, E. coli, L. monocytogenes, podem ficar “invisíveis” aos testes de rotina no laboratório, apresentando resultados “aprovado” “negativo” “satisfatório” “conforme”, e continuarem vivos com um grande potencial de gerar contaminações e doenças. Além de comprometer a liberação de lotes, monitoramento ambiental, validação de limpeza, validação de desinfetantes, eficácia de conservantes e estudos de estabilidade microbiológica, permanecendo vivos até mesmo após o processamento de alimentos.
Então como fazer quando métodos tradicionais de cultura falham?
Implantar e implementar no laboratório técnicas alternativas com base em viabilidade podem contribuir muito para o controle do “VBNC”. Mas inserir essas metodologias na rotina tem um custo muito elevado. Para laboratórios que ainda não possuem métodos alternativos avançados, a estratégia mais importante é reduzir a probabilidade de ocorrência e aumentar a capacidade de “suspeitar” da presença das células VBNC por meio de uma abordagem preventiva e investigativa.
Abaixo algumas ações recomendadas que podem ajudar na previsibilidade e controle desses microrganismos:
Fortalecimento do monitoramento ambiental convencional, ainda que usando métodos tradicionais, é possível melhorar a sensibilidade com aumento da frequência, ampliação de pontos de amostragem, monitorar a tendência microbiológica (Trend Analysis), investigar contagens baixas recorrentes, correlacionar resultados ambientais e de produtos, e em sistema de água ficar atento a oscilações microbiológicas repetitivas, pois elas podem indicar presença de biofilme com possível presença de VBNC.
Trabalhar com análises de tendência e não apenas com a especificação “aprovado/reprovado”. O ideal é analisar o aumento gradual de isolados, recorrência do mesmo gênero, mudanças sazonais, comportamento da água e do ambiente, alterações após sanitizações.
Intensificar a atenção a “pequenos” desvios microbiológicos. Desvios menores muitas das vezes precedem a problemas maiores. Investigar isolados ambientais recorrentes, pesquisar microrganismos de crescimento lento, contaminações intermitentes, aumento discreto da biocarga.
Evitar condições que induzem VBNC, como estresse subletal, é importante revisar com regularidade por exemplo a concentração dos desinfetantes, tempo de contato, exposição a conservantes, sanitização, pH, temperatura.
Investigação de biofilmes, monitorar pontos mortos (dead legs), avaliação de ocorrência dos mesmos microrganismos, investigar drenagens e sistemas de água, realização de desmontagem periódica de equipamentos.
A utilização de meios de cultura em condições de recuperação mais favoráveis, como aumentar o tempo de incubação, empregar meios enriquecidos, realizar o pré-enriquecimento não seletivo, reduzir a seletividade excessiva do meio de cultura, bactérias lesionadas podem não crescer em meios seletivos fortes, mas crescer após recuperação em caldo nutritivo.
Criar periodicidade na validação de limpeza e sanitização, revisando rotação de desinfetantes, avaliar eficácia contra biofilmes, validar tempo real de contato, evitar diluições incorretas, monitorar pontos de difícil limpeza. Sanitização e limpeza inadequada favorecem “sobrevivência” de VBNC.
Criar estratégia gradual para uma possível implantação e implementação de métodos alternativos que possam colaborar para a identificação e controle de células VBNC no dia a dia.
Muito importante capacitar a equipe do laboratório microbiológico para que compreenda, a diferença entre ausência de crescimento e ausência de viabilidade, células lesionadas podem “escapar” das culturas, biofilmes podem mascarar contaminações, interpretar os resultados microbiológico com criticidade.
Na prática industrial o controle de VBNC depende muito mais de uma cultura, dos hábitos, e dos costumes de uma empresa em investigar de forma robusta a rotina microbiológica, do que apenas da tecnologia analítica disponível.